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Livro: Todas as cartas de amor

13/11/2014

1Não conhecia o Paulo José Miranda e muito menos a existência desse livro. Acabei comprando depois de encontrar ele na vitrine de praticamente todas as livrarias que entrei durante a viagem – obviamente que o fator capa contou muito, já que sou dessas que compra o livro pela capa. Mas confesso que me surpreendi bastante. As cartas de amor contidas nele (70 ao total) são daquelas que toda mulher gostaria de guardar ao lado da cama para ler antes de dormir ♥

Mesmo não sendo minha, uma delas ganhou meu coração. Não poderia deixar de publicá-la aqui:

“Meu amor,

São raras as vezes que no curso de uma vida é concedido a um homem apreciar tanto uma mulher quanto eu te aprecio, mas mais raro ainda é a vida conceder-lhe a realização dessa apreciação. Muito mais raro ainda, nos dias de hoje, é um homem continuamente apreciar uma mesma mulher ao longo de inúmeros anos, ter nessa mulher a ideia de beleza ou, melhor, essa mulher representar ou despertar nesse homem a ideia de beleza (e dentro de pouco mais de um mês perfaz nove anos, apenas um ano a menos do que o tempo que Ulisses levou a chegar a casa). Assim se passa comigo, assim se tem passado comigo em relação a ti. Sempre e de cada vez que te olho, sinto a perplexidade da beleza, isto é, a violência intangível da manifestação da beleza no coração humano. Por mais que te toque, sei que nunca te toco; a beleza de que participo ao tocar-te não passa nunca para mim, nem acalma a minha dor de desconhecido que a tua beleza desperta. Resta-me, e não é pouco, a consciência de que estou próximo do que os gregos denominavam divino: um poder distante e contínuo sobre a condição humana. Pois, meu amor, és tantas vezes para mim o que uma deusa foi para eles: adorada e responsável pelas minhas paixões. Quando olho a tua pele, com a cor do espanto (responsável pelo filosofar, segundo Platão), quando olho a tua boca, com a forma do desejo, e os teus olhos de leito que se fecham comigo a pesar-te em cima, quando olho a tua figura elegante e ligeiramente melancólica como o início do Outono, da ideia do Outono, quando os teus vestidos permitem que me deleite e me perca na perfeição das tuas pernas, quando as tuas pernas ao moverem-se sublinham a luxúria das tuas nádegas e das tuas ancas sob os tecidos, quando, enfim, te vejo chegar, sei que não me pertenço. E com um só beijo fazes-me dizer tudo o que querias saber, tudo o que eu queria esconder. Com um só beijo teu, a língua fundo na minha boca e os teus lábios à temperatura de uma aguardante vínica junto ao fogo, sucumbo ao teu domínio como Dario sucumbiu à força de Alexandre. Mas agora sou teu escravo apenas neste tempo de distância, neste tempo em que a tua imagem é um cadáver dentro de mim e não a vida ao alcance de uma das minhas mãos, ao alcance dos meus dois lábios.

O teu”

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