Skip to content

Só o amor por outro nos torna humanos

02/06/2015

Precisava compartilhar aqui o primeiro texto do meu amigo Paulo José Miranda para o Brasil Post. Quem quiser acessar o seu novo blog, basta clicar aqui. Segue o belíssimo texto:

PauloJoséMiranda - BrasilPost

O amor sem Deus, segundo Kierkegaard, é um amor vivido com medo. Diria mais, se Kierkegaard não se importar, claro: este amor é a nossa própria experiência da morte. Viver um amor é viver a morte, a possibilidade da morte. Sozinhos somos imortais. Só a queda no amor nos dá a queda na mortalidade.

Só o amor por outro nos torna humanos.

Por conseguinte, e por mais estranho que possa parecer, a verdade é que o medo de o amor acabar não é o medo de morrer, mas o medo de não continuar a morrer, o medo de não sermos mortais. Perder nosso amor é perder a mortalidade, tornarmo-nos imortais. Imortais que não queremos ser. Quem não lembra a imagem daquele que é eterno contra vontade, aquele que é eterno sofrendo pelo infinito dos dias e dos mundos?

Esta eternidade sofrível é a expulsão do amor. Por isso, por não querermos ser expulsos do paraíso, é que temos medo de perder o amor. Temos medo que a amada nos deixe. Temos medo, porque somos mortais. Os dois limites que nunca poderemos ultrapassar, enquanto humanos, é precisamente o medo e o sofrimento. O medo quando amamos e o sofrimento quando perdemos o amor, ou não o alcançamos.

Aquele que se furta ao amor, à experiência do amor e não à ideia do amor, furta-se a si mesmo. Ainda que, aos olhos dos outros e aos olhos de si mesmo possa parecer maior do que todos os outros.

Precisamente, excluir-se do medo e do sofrimento máximos, experiência de vulnerabilidade por excelência do humano, porque impossível de controlar, e por conseguinte experiência máxima do pleno sentido da vida, sempre exposta à possibilidade de uma mudança radical, é decidir-se por ser menos do que se é ou menos do que se pode ser. Menos, não porque o amor é grande; menos, porque o amor nos torna à verdadeira medida da vida, expondo a nossa real vulnerabilidade, isto é, no amor o humano torna-se consciente do seu ser humano, como em nenhuma outra experiência.

Falo, evidentemente, do amor fora da esfera do religioso. Do amor preferencial, como discrimina Kierkegaard. E este é um dos problemas com que os amantes, o amor, se debate nos dias que somos. Como ter fé (que afasta o medo para longe) no nosso amor preferencial, num mundo em que à menor dificuldade, à menor contrariedade deixamos aquele que amamos? De outro modo: como ter fé no amor, num mundo onde tanto se ama à velocidade do corpo? Num mundo onde também se ama somente na excelência do conforto e das não contrariedades?

Ser humano sem a experiência do amor é possível apenas se vivermos sem desejo de humanos, sem desejo de um corpo humano, como o viveu e muito bem Kierkegaard. Mas caso não sejamos humanos como ele, só pelo amor com outro, só na permanente possibilidade da perda nos tornaremos humanos.

Ser-se Fernando Pessoa ou Ludwig Beethoven não é garante de ser humano, embora sem dúvida eles e tantos outros sejam expoentes máximos nas suas artes. No fundo, o que aqui se mostra é que ser humano não é ter nascido homem ou mulher e ser excelente, mas ter nascido homem ou mulher e descer ao abismo da consciência diária da possibilidade de perda do outro a quem entregámos a nossa órbita.

Foge-se do amor, porque há resquícios de não se ser (ou querer ser) mortal. E, pergunto eu, por fim, a vós, haverá modo mais fácil de inventar uma fuga à mortalidade do que a vivência contínua de ninguém ter poder sobre nós?

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: